Memória é onde se guardam as coisas do passado.
Há dois tipos de memórias: memórias sem vida própria e memórias com vida própria.
As memórias sem vida própria são inertes. Não têm vontade. Sua existência é semelhante à das ferramentas guardadas numa caixa. Não se mexem. Ficam imóveis nos seus lugares, à espera. À espera de quê? À espera de quê as chamemos.
As memórias com vida própria, ao contrário, não ficam quietas dentro de uma caixa. São como pássaros em vôo. Vão para onde querem. E podemos chamá-las que elas não vêm. Só vêm quando querem. Moram em nós, mas não pertencem. O seu aparecimento é sempre uma surpresa. É que nem suspeitávamos que estivessem vivas!
“Alma” é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, rir, chora...
Para que servem elas? Para nada. Não são ferramentas. Não podem ser usadas. São inúteis. Elas aparecem por causa da saudade. A alma é movida à saudade. A alma não tem o menor interesse no futuro. A saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perdem.
São com esses cacos de memória, pedaços de nós mesmos, que se escrevem romances, estórias infantis, poesia, lendas, mitos religiosos, utopias.
É muito fácil contar o passado usando as memórias sem vida própria. É só coletar os fatos e organiza-los numa ordem temporal e espacial. É assim que se escreve a “história”.
Tenho raiva dos gramáticos. Fernando Pessoa também tinha. Os gramáticos se sentem no direito de proibir palavras. Tiraram “estória” do dicionário. Agora só se pode dizer “história”. Mas o que tem “história” a ver com “estória”? “A estória não quer tornar-se história”, dizia Guimarães Rosa. A historia acontece no tempo que aconteceu e não acontece mais. A estória mora no tempo que não aconteceu para que aconteça sempre.
A saudade mistura tudo. A saudade não conhece o tempo. Não sabe o que é antes nem depois. Tudo é presente.
“A lembrança pura não tem data. Tem uma estação. Que vento fazia nesse dia memorável? O devaneio não conta história...” (Bachelard)
Há dois tipos de memórias: memórias sem vida própria e memórias com vida própria.
As memórias sem vida própria são inertes. Não têm vontade. Sua existência é semelhante à das ferramentas guardadas numa caixa. Não se mexem. Ficam imóveis nos seus lugares, à espera. À espera de quê? À espera de quê as chamemos.
As memórias com vida própria, ao contrário, não ficam quietas dentro de uma caixa. São como pássaros em vôo. Vão para onde querem. E podemos chamá-las que elas não vêm. Só vêm quando querem. Moram em nós, mas não pertencem. O seu aparecimento é sempre uma surpresa. É que nem suspeitávamos que estivessem vivas!
“Alma” é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, rir, chora...
Para que servem elas? Para nada. Não são ferramentas. Não podem ser usadas. São inúteis. Elas aparecem por causa da saudade. A alma é movida à saudade. A alma não tem o menor interesse no futuro. A saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perdem.
São com esses cacos de memória, pedaços de nós mesmos, que se escrevem romances, estórias infantis, poesia, lendas, mitos religiosos, utopias.
É muito fácil contar o passado usando as memórias sem vida própria. É só coletar os fatos e organiza-los numa ordem temporal e espacial. É assim que se escreve a “história”.
Tenho raiva dos gramáticos. Fernando Pessoa também tinha. Os gramáticos se sentem no direito de proibir palavras. Tiraram “estória” do dicionário. Agora só se pode dizer “história”. Mas o que tem “história” a ver com “estória”? “A estória não quer tornar-se história”, dizia Guimarães Rosa. A historia acontece no tempo que aconteceu e não acontece mais. A estória mora no tempo que não aconteceu para que aconteça sempre.
A saudade mistura tudo. A saudade não conhece o tempo. Não sabe o que é antes nem depois. Tudo é presente.
“A lembrança pura não tem data. Tem uma estação. Que vento fazia nesse dia memorável? O devaneio não conta história...” (Bachelard)






