quarta-feira, 21 de março de 2007

Sobre as Memórias

Memória é onde se guardam as coisas do passado.
Há dois tipos de memórias: memórias sem vida própria e memórias com vida própria.
As memórias sem vida própria são inertes. Não têm vontade. Sua existência é semelhante à das ferramentas guardadas numa caixa. Não se mexem. Ficam imóveis nos seus lugares, à espera. À espera de quê? À espera de quê as chamemos.
As memórias com vida própria, ao contrário, não ficam quietas dentro de uma caixa. São como pássaros em vôo. Vão para onde querem. E podemos chamá-las que elas não vêm. Só vêm quando querem. Moram em nós, mas não pertencem. O seu aparecimento é sempre uma surpresa. É que nem suspeitávamos que estivessem vivas!
“Alma” é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, rir, chora...
Para que servem elas? Para nada. Não são ferramentas. Não podem ser usadas. São inúteis. Elas aparecem por causa da saudade. A alma é movida à saudade. A alma não tem o menor interesse no futuro. A saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perdem.
São com esses cacos de memória, pedaços de nós mesmos, que se escrevem romances, estórias infantis, poesia, lendas, mitos religiosos, utopias.
É muito fácil contar o passado usando as memórias sem vida própria. É só coletar os fatos e organiza-los numa ordem temporal e espacial. É assim que se escreve a “história”.
Tenho raiva dos gramáticos. Fernando Pessoa também tinha. Os gramáticos se sentem no direito de proibir palavras. Tiraram “estória” do dicionário. Agora só se pode dizer “história”. Mas o que tem “história” a ver com “estória”? “A estória não quer tornar-se história”, dizia Guimarães Rosa. A historia acontece no tempo que aconteceu e não acontece mais. A estória mora no tempo que não aconteceu para que aconteça sempre.
A saudade mistura tudo. A saudade não conhece o tempo. Não sabe o que é antes nem depois. Tudo é presente.

“A lembrança pura não tem data. Tem uma estação. Que vento fazia nesse dia memorável? O devaneio não conta história...” (Bachelard)

7 comentários:

DO disse...

Fiquei chateado com a sua tristeza.
Se quiser conversar,tens aqui um amigo

Abração!

Sieger disse...

Triste tb? :(
Isso deve ser um virus

Lugosi disse...

Claro que pode linkar o blog aqui. hehehe

Aproveitei e coloquei um link para o seu blog na página de links do Clube da Mafalda.

Abraço.

RodrigoBrower disse...

Saudade é algo estranho de sentir..pior de explicar..rs..Ótima semana pra ti..Bjs

Igor disse...

Sílvio... você não tem vergonha? Vergonha de me fazer ficar tão mexido com este seu texto? Meu Deus... que lindo! Fique inebriado!
Curiosa essa sua alusão... de muita inteligência e bom gosto.
Às vezes, eu acho que as memórias deveriam ser todas como aquelas que se igualam às ferramentas. Porque estas que pulsam e não ficam em caixinhas, às vezes só nos fazem sofrer. Mas enfim... amigo, lindo o seu blog.
Você sabe que sempre que eu puder, estarei aqui.

Lindo...
Bjuz

Márcia(clarinha) disse...

Estou tremendamente feliz com esse vídeo e o sorriso teima em não sair de mim, obrigada por isso.
Prefiro pensar que a memória que abrigo tem vida própria e muito vem vivida pois nela encontro de tudo, bom e nem tanto, mal e mais ou menos, enfim...
Amei seu espaço e curta saudade pois é sinal de que tem história pra contar.
noite muito boa procê
beijossssssssssss

C_BRITTO disse...

Tem um famoso poeta nosso, que diz assim:
“O acaso me trouxe aqui”
E eu repito: o acaso me trouxe aqui!

Enfim... sobre tua postagem. Sempre encontramos na memória feitas de vidas e de sonhos, penso que, a nossa memória pode perder a cor, mas nunca desaparecerá.

Abraços!